Seção 2. Como Cristo Voltará?
2.1 As Perspectivas Mencionadas na Bíblia
Deus revela antecipadamente todos os assuntos essenciais de Sua Vontade em parábolas e símbolos, a fim de que as pessoas de qualquer época possam entender as demandas da Providência para seu tempo e para o futuro, de acordo com o nível de seu intelecto e de sua espiritualidade. O fato de Deus ter utilizado parábolas e símbolos na Bíblia resultou, inevitavelmente, em muitas interpretações divergentes. Esta foi a principal razão por que a igreja cristã se dividiu. Assim, ao interpretar a Bíblia, o aspecto mais importante é encontrar a perspectiva correta.
Consideremos, por exemplo, o profeta João Batista. Por dois mil anos lemos a Bíblia com a ideia de que João Batista havia cumprido sua missão. Portanto, as passagens bíblicas referentes a João Batista pareciam apoiar essa ideia. Todavia, quando reexaminamos a Bíblia mais profundamente de um ponto de vista diferente, podemos perceber claramente que João Batista, de fato, não cumpriu sua missão (Cf. Messias 2.3.).
Até hoje, muitos de nós têm lido a Bíblia com a noção preconcebida de que Jesus voltaria nas nuvens com sinais e milagres. Esta ideia está baseada em algumas palavras de Jesus, tais como: Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da Terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. (Mt 24:30-31) Se adotarmos uma interpretação literal, a evidência bíblica parece apontar realmente nessa direção. Entretanto, a ideia de que Cristo retornará nas nuvens é totalmente inaceitável para a mente científica da Idade Moderna. Por isso, torna-se necessário sondar mais profundamente a Bíblia de outro ponto de vista a fim de atingir o verdadeiro significado de tais versículos.
Esta nova perspectiva foi sugerida por nossa investigação anterior das passagens bíblicas relativas a João Batista. O profeta Malaquias havia predito que Elias retornaria antes da vinda do Messias (Ml 4: 5). Como esperavam ansiosamente aquele dia, muitos judeus acreditavam que Elias, que havia ascendido ao céu, desceria do céu da mesma forma que ascendera. Contrariando suas expectativas, entretanto, Jesus corajosamente afirmou que João Batista, o filho de Zacarias, era Elias (Mt 11: 14).
Se acreditamos no testemunho de Jesus, o retorno de Elias jamais ocorreria da forma miraculosa como muitos judeus esperavam. Com efeito, seu retorno ocorreu por meio de seu nascimento como uma criança. Do mesmo modo, muitos cristãos dos dias atuais creem que Jesus voltará nas nuvens. Entretanto, o que aprendemos sobre o real retorno de Elias sugere uma outra possibilidade: que o retorno de Cristo poderá acontecer através de seu nascimento como uma criança, tal como na Primeira Vinda. A partir dessa nova perspectiva, reexaminemos os versículos bíblicos referentes à Segunda Vinda.
Na Primeira Vinda de Jesus, muitos dos sábios de Israel pensavam que o Messias nasceria em Belém como um descendente do rei Davi (Mt 2: 5-6; Mq 5: 2). Contudo, indubitavelmente, havia muitos outros judeus que esperavam o Messias vindo das nuvens. Esta convicção estava baseada na leitura da profecia de Daniel: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele” (Dn 7: 13), e em outras profecias sobre os eventos sobrenaturais dos Últimos Dias (Jl 2: 30-31). Portanto, os fariseus e saduceus questionaram Jesus, exigindo que ele apresentasse um sinal do Céu como prova de que era realmente o Messias (Mt 16: 1-4 ; Mc 8:11-12). Sem quaisquer dos sinais sobrenaturais do Céu preditos na Bíblia, eles não puderam prontamente aceitá-lo como o Messias longamente esperado. A crença de que o Messias deveria vir de forma sobrenatural persistiu após a morte de Jesus, mesmo entre alguns cristãos que acreditavam que Jesus não veio em um corpo físico. O apóstolo João condenou esses crentes como anticristos: Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo. (II Jo 7)
Muitos cristãos afirmam que a profecia de Daniel refere-se ao Segundo Advento de Cristo. Entretanto, na Idade do Velho Testamento, Deus estava trabalhando para cumprir toda a finalidade da Providência da Restauração com a vinda de Jesus, como atesta a Bíblia: “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” (Mt 11: 13), e também: “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10: 4). Desse modo, antes de o próprio Jesus começar a falar sobre seu retorno, ninguém jamais imaginou um Segundo Advento. É óbvio que nenhum judeu daquele tempo pensou que o versículo de Daniel se referisse a qualquer outra coisa senão àquilo que eles acreditavam ser a primeira e única vinda do Messias.
Contrariando as expectativas de muitos judeus fiéis que acreditavam nas passagens bíblicas segundo as quais o Messias viria nas nuvens com sinais nos céus, Jesus nasceu na Terra como uma criança em uma família humilde. Por conseguinte, vamos examinar a Bíblia de uma outra perspectiva, a de que o Segundo Advento de Cristo pode não ocorrer de uma forma miraculosa; na verdade, pode ocorrer da mesma maneira como no Primeiro Advento.
2.2 Cristo Retornará como uma Criança na Terra
Jesus fez várias predições sobre o que aconteceria ao Senhor em seu retorno: Mas primeiro convém que ele padeça muito, e seja reprovado por esta geração. (Lc 17:25) Se Jesus fosse retornar literalmente sobre as nuvens do céu com poder e grande glória e com as trombetas de anjos (Mt 24: 30-31), não seria ele prontamente aceito e honrado, mesmo por este mundo cheio de pecado? Retornando de tal maneira, não haveria motivo para ele sofrer perseguição e rejeição.
Por que, então, Jesus predisse que o Cristo enfrentaria uma situação tão miserável em seu retorno?
Os judeus de seus dias estavam ansiosos esperando pelo dia em que Elias desceria do céu. Esperava-se que ele retornasse antes do Messias para ser seu arauto, como Malaquias havia profetizado (Ml 4: 5). Em vez disso, antes de o povo ter ouvido qualquer notícia sobre o retorno de Elias, Jesus, um homem simples e de nascimento humilde, apareceu como um ladrão, afirmando ser o Messias. Por conseguinte, eles desprezaram Jesus e o perseguiram (Cf. Messias 2: 2.). Diante de sua própria situação, Jesus anteviu que no Segundo Advento, os cristãos que esperam seu retorno voltariam mais uma vez seus olhares para o céu, à sua espera. Assim, é provável que eles persigam o Cristo do Segundo Advento quando ele nascer na carne e aparecer inesperadamente como um ladrão. Os cristãos poderiam, inclusive, condená-lo como um herege, tal como ele próprio fora condenado. Esta foi a razão pela qual Jesus predisse que o Senhor sofreria e seria rejeitado por essa geração (a geração decaída). Esta profecia somente poderá ser cumprida se Cristo retornar na carne; certamente, ela não se cumpriria se ele viesse nas nuvens.
Certa vez, Jesus disse: “Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na Terra? (Lc 18:8) Como o mundo já está vivendo os Últimos Dias, um crescente número de cristãos está se esforçando para desenvolver uma fé mais forte. Como estes cristãos poderiam cair em descrença se, no Segundo Advento, o Senhor vier literalmente sobre as nuvens do céu ao som de trombetas de anjos e na glória de Deus? Assim, a profecia também não poderá ser cumprida se o Cristo retornar de modo sobrenatural.
No tempo de Jesus, muitos judeus pensavam que o Messias nasceria em Belém e emergiria como seu rei (Mt 2: 6), mas somente depois que Elias descesse do céu. Contrariando todas as expectativas da época, antes do aparecimento de Elias, o filho de um carpinteiro de Nazaré adiantou-se e se apresentou como o Messias. Assim, é compreensível que Jesus não pôde encontrar entre os judeus nenhum seguidor fiel e zeloso o suficiente para segui-lo com o risco da própria vida. Jesus ficou aflito com aquela situação e lamentou-se ao imaginar que algo semelhante poderia acontecer ao Cristo em seu retorno. Ele previu uma situação semelhante para o Segundo Advento, supondo que os crentes do futuro estariam olhando para o céu, acreditando que Cristo retornaria sobre as nuvens em glória. Portanto, quando Cristo de fato retornar à Terra com o corpo de um homem de origem humilde, ele poderá não encontrar fé, como aconteceu no tempo de Jesus. Esta profecia de Lucas nunca poderá ser cumprida a menos que Cristo venha a nascer na Terra.
Alguns estudiosos interpretam este versículo bíblico com o significado de que as tribulações dos Últimos Dias seriam tão severas que todos os crentes perderiam a fé. Contudo, no curso da Providência, nenhuma tribulação, não importa quão severa tenha sido, jamais bloqueou o caminho da fé. Muito menos nos Últimos Dias, quando os cristãos fiéis estão ansiosos para atravessar o último portão do Céu! É a natureza universal da fé que quanto maior nossas tentações e tribulações, mais zelosamente procuramos a salvação de Deus.
Jesus disse, noutra ocasião: Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. (Mt 7:22-23) Se um cristão é tão fiel a ponto de realizar milagres em nome do Senhor, muito mais ardentemente ele crerá e servirá ao Senhor quando ele vier sobre as nuvens do céu em grande glória. Jesus, então, não o receberia calorosamente? Por que, então, Jesus predisse que rejeitaria tais cristãos fervorosos em seu retorno? Se em seu retorno Cristo rejeitar até mesmo aqueles crentes mais devotos, quem poderá ser salvo nos Últimos Dias? Esta profecia também não poderá ser cumprida se Jesus vier nas nuvens.
Nos dias de Jesus, deve ter havido muitos judeus cuja fé era tão ardente que eles podiam realizar milagres em nome de Deus. Contudo, uma vez que eles acreditavam que o próprio Elias desceria do céu antes da vinda do Messias, era difícil para eles aceitar que Elias estava presente no meio deles como João Batista — ainda mais por causa da resposta negativa de João (Jo 1: 21). Assim, eles não aceitaram Jesus como o Messias e o expulsaram da comunidade. Consequentemente, Jesus teve que abandoná-los em lágrimas. Da mesma maneira, no Segundo Advento de Cristo, os cristãos que esperam sua aparição miraculosa e gloriosa nas nuvens do céu, certamente o rejeitarão se ele vier na carne através de um nascimento humilde. Não importa quão fervorosos eles possam ser, o Senhor não terá outra escolha a não ser abandoná-los por causa de sua descrença e transgressão contra Deus.
Seguramente, a série de profecias a respeito dos Últimos Dias em Lucas, capítulo 17, não poderá ser cumprida se o Cristo retornar de uma maneira sobrenatural. Estes versículos somente podem ser explicados com base na premissa de que Cristo retornará através de seu nascimento na Terra. Examinemos cada um dos versículos detalhadamente.
O Reino de Deus não vem com aparência exterior. — Lc 17: 20 (Almeida (Revista e Corrigida 1969).) Se o Senhor vier nas nuvens ou de alguma maneira miraculosa, o Reino de Deus chegará de uma maneira notável para todos. Mesmo no Primeiro Advento, o Reino de Deus havia chegado à Terra com o nascimento de Jesus. Contudo, os judeus da época não o viram, pois ainda estavam esperando pelo retorno de Elias do céu, e assim, não puderam crer em Jesus. Da mesma forma, no Segundo Advento, embora o Reino de Deus desça sobre a Terra com o nascimento de Cristo, os cristãos que acreditam em sua vinda das nuvens, seguida de eventos sobrenaturais, não crerão no Senhor, e assim, não verão o Reino de Deus.
Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque eis que o Reino de Deus está entre vós. (Lc 17:21) No tempo de Jesus, aqueles que creram e o seguiram já participavam do Reino do Céu em seus corações. Da mesma forma, no Segundo Advento de Cristo, porque ele nascerá na Terra, o Reino dos Céus será realizado primeiro nos corações daqueles que acreditarem nele e o seguirem. Quando estes indivíduos aumentarem em número para formar sociedades e nações, o Reino do Céu interior gradualmente se manifestará externamente no mundo, como uma realidade visível. Deste modo, vemos que Jesus afirmou que o prometido Reino dos Céus não será realizado em um instante, o que certamente ocorreria se Cristo retornasse nas nuvens.
E disse aos discípulos: Dias virão em que desejareis ver um dos dias do Filho do homem e não o vereis. (Lc 17:22) Se o Senhor vier nas nuvens com sons de trombetas de anjos, todos serão capazes de vê-lo. Quem, então, desejaria ver um dia do Filho do homem e não o veria? Contudo, Jesus predisse que o povo não veria o dia. No Primeiro Advento de Jesus, o dia do Filho do homem ocorreu na Terra com seu nascimento. Contudo, com a descrença, os judeus não puderam ver o dia. Da mesma forma, no Segundo Advento de Cristo, o dia do Filho do homem ocorrerá com seu nascimento na Terra. Não obstante, muitos cristãos não serão capazes de ver o dia porque, como estão convencidos de que o Cristo virá de uma maneira miraculosa, não crerão nele e nem o seguirão, mesmo depois de encontrar-se com ele. Assim, mesmo que o dia do Filho do homem já tenha ocorrido, eles não serão capazes de vê-lo.
Dir-vos-ão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Não vades, nem os sigais. (Lc 17:23) Como foi discutido anteriormente (Cf. Ressurreição 2.2.6.), nos Últimos Dias os cristãos que tiverem atingido um bom nível espiritual podem receber a revelação de que eles são o Senhor. Não compreendendo a base no Princípio para tal revelação, é possível que muitos deles se auto proclamem como sendo o escolhido, o Messias. Assim, mesmo sem o saber, muitos se tornarão nos anticristos que antecederão a vinda do Senhor. Por isso, Jesus disse as seguintes palavras como uma advertência para que o Cristo não seja confundido com tais pessoas.
Porque, como o relâmpago ilumina desde uma extremidade inferior do céu até a outra extremidade, assim será também o Filho do Homem no seu dia. (Lc 17:24) Quando Jesus nasceu, a notícia do nascimento do Rei dos Judeus alcançou o rei Herodes e agitou toda Jerusalém (Mt 2: 2-3). No Segundo Advento, os avanços nos transportes e nas comunicações permitirão que as notícias do Segundo Advento viagem aos quatro cantos do globo, Oriente e Ocidente, com a velocidade de um relâmpago.
E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. — Lc 17:26 (Lc 17: 25 foi discutido anteriormente.) Quando Noé soube que o julgamento pelo Dilúvio era eminente, ele chamou as pessoas para entrarem em sua arca (II Pe 2: 5). No entanto, elas não deram ouvido às suas palavras e todos foram afogados. Da mesma forma, nos Últimos Dias, Cristo retornará na carne e chamará as pessoas para entrar na arca da verdade. Todavia, os cristãos que, obstinadamente, permanecerem olhando para o céu à espera dos supostos sinais miraculosos da aparição do Senhor, não darão ouvidos às palavras da verdade proclamadas a partir da Terra. Em vez disso, eles rejeitarão o Senhor como um herege. Descuidados como o povo do tempo de Noé, eles fracassarão em servir a vontade providencial de Deus.
Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, e qualquer que a perder, salvá-la-á. (Lc 17:33) Teria alguém de sacrificar sua vida para seguir o Senhor se ele viesse nas nuvens com o toque da trombeta dos anjos? Porque o Cristo retornará através de um nascimento físico, ele será visto como um herege perante os cristãos que o esperam vindo de uma forma miraculosa. Assim, aqueles que o seguirem devem estar prontos para enfrentar até mesmo a morte. O versículo também significa que as pessoas que acreditarem nele e o seguirem com o risco de suas vidas, irão viver. Se, por outro lado, levados pelas circunstâncias mundanas, eles se voltarem contra o Cristo e se afastarem dele para salvar suas próprias peles, a morte virá sobre eles.
E, respondendo, disseram-lhe: Onde, Senhor? E ele lhes disse: Onde estiver o corpo, ali se ajuntarão as águias. (Lc 17:37) Essa foi a resposta de Jesus à pergunta sobre o local do Segundo Advento. Recordamos que as aves de rapina desceram sobre a pomba que não havia sido apropriadamente dividida na oferta de Abraão (Gn 15: 11). Aquilo nos ensinou que Satanás está sempre procurando por uma oportunidade para reivindicar o que não está devidamente santificado. Assim, podemos compreender o significado da resposta enigmática de Jesus: tal como os urubus se reúnem ao redor de uma carcaça para comê-la, os demônios se reúnem ao redor daqueles que estão espiritualmente mortos para reivindicá-los. O Senhor, que é a fonte da vida, virá em um local de abundante vida espiritual. Com aquelas palavras, Jesus queria dizer que o Senhor aparecerá entre os crentes fiéis.
No Segundo Advento de Cristo, pessoas de fervorosa fé se reunirão em um lugar com a assistência de muitos espíritos (Cf. Ressurreição 2.3.2.2; 3.1; 3.2.). Este será um lugar de vida onde o Senhor aparecerá. Jesus nasceu entre o povo escolhido, que adorava a Deus fielmente. Em particular, Jesus revelou-se como o Messias para aqueles que tiveram fé, tornaram seus discípulos e o seguiram.
Uma vez que Cristo nascerá na Terra em seu Segundo Advento, está escrito: “E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono” (Ap 12: 5). O cetro de ferro aqui significa a Palavra de Deus, com a qual o Senhor julgará o mundo pecaminoso e restaurará o Reino do Céu na Terra. Como foi explicado anteriormente (Cf. Escatologia 3.2.2.), o julgamento por fogo significa o julgamento pela Palavra (Jr 23: 29). Assim, a Palavra de Cristo, que será o nosso juiz nos Últimos Dias (Jo 12: 48), é a mesma Palavra pela qual o Céu e a Terra serão “queimados no fogo” do julgamento (II Pe 3: 7), e é também o sopro da boca do Senhor com o qual ele destruirá o ímpio (II Ts 2: 8). A Palavra que Cristo anuncia é também chamada “o sopro de seus lábios” e a “vara de sua boca” (Is 11: 4). Todas estas expressões simbolizam o cetro de ferro, como está escrito: “e com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai” (Ap 2: 27).
O versículo fala também de um menino, que nasce de uma mulher e é levado para Deus e para o Seu trono. Quem, então, nasce de uma mulher como alguém digno de sentar no trono de Deus e reger todas as nações com a Palavra de Deus? Tal pessoa não pode ser outro senão o Cristo no Segundo Advento, que nascerá na Terra com um novo nome conhecido somente por ele mesmo (Ap 2: 17; 19: 12). Ele regerá como o Rei dos reis e construirá o Reino do Céu na Terra.
No início do Evangelho de Mateus há um registro de quatro mulheres adúlteras, ou pagãs, na linhagem de Jesus (Mt 1: 3, 5 e 6). Isto demonstra que o Salvador da humanidade deve nascer como um homem sem pecado, como fruto de um processo de purificação da linhagem a partir de uma linhagem com pecado, para salvar todos os descendentes das linhagens pecadoras.
Muitos cristãos têm interpretado a mulher do versículo acima como a Igreja (A expressão “resto dos filhos” (Apoc. 12: 17) deve ser interpretada como significando os filhos adotivos de Deus (Rom. 8: 23).). Eles formularam esta interpretação baseados na premissa de que Cristo no Segundo Advento viria nas nuvens.
Alguns cristãos acreditam que o Segundo Advento de Cristo ocorre toda vez que Jesus entra nos corações das pessoas (Jo 14: 20) através da descida do Espírito Santo (At 8: 15-17). Contudo, Jesus tem morado nos corações dos crentes fiéis desde sua ressurreição e da descida do Espírito Santo em Pentecostes (At 2: 4). Se este fosse o verdadeiro significado do Segundo Advento, então ele já teria ocorrido há dois mil anos.
Além do mais, algumas denominações ensinam que Jesus retornará como um espírito. Entretanto, imediatamente após a sua ressurreição do túmulo no terceiro dia, Jesus apareceu diante de seus discípulos com a mesma aparência que tinha durante sua vida terrena. Desde aquele tempo, ele tem livremente visitado e educado muitos cristãos que alcançaram um elevado nível espiritual. Assim, esta outra interpretação da Segunda Vinda também já teria ocorrido dois mil anos atrás. Se estas fossem as interpretações corretas, não teríamos nenhuma razão para aguardar o histórico Segundo Advento, nem para olhar para o futuro à espera do dia no qual se cumprirão nossas mais estimadas esperanças.
Embora os discípulos tenham se encontrado frequentemente com o Jesus ressuscitado, que lhes aparecia em espírito, ainda assim eles continuaram esperando pelo seu Segundo Advento. Podemos deduzir, então, que eles não estavam considerando o Segundo Advento como sendo o retorno de Jesus como um espírito. Por exemplo, quando Jesus apareceu em uma visão para o apóstolo João, disse-lhe: “Certamente, cedo venho”; ao que João respondeu: “Amém. Ora vem, Senhor Jesus!” (Ap 22: 20). Aqui, tanto Jesus como João distinguiram claramente o Jesus espiritual do Cristo do Segundo Advento. Isto demonstra que, em seu Segundo Advento, Cristo não virá como um espírito. Ele nascerá como uma criança na Terra, tal como ocorreu no Primeiro Advento.
Há várias razões no Princípio pelas quais Cristo deve retornar como um homem terreno. Deus criou o mundo espiritual e o mundo físico. Em seguida, Deus criou os seres humanos com ambos os aspectos espiritual e físico, pretendendo que eles regessem sobre os dois mundos de acordo com Suas bênçãos (Cf. O Princípio da Criação 6.3.). Devido à Queda de Adão, os seres humanos perderam a qualificação para serem os senhores dos dois mundos. Consequentemente, a Criação foi privada de seus verdadeiros senhores, e tem lamentado e aguardado pelo surgimento dos filhos de Deus que podem verdadeiramente governá-la (Rm 8: 19-22). Jesus, o Adão aperfeiçoado, veio como o perfeito senhor dos dois mundos (I Co 15: 27). Ao atrair e enxertar todos os crentes em si (Rm 11: 17), mantendo-os em unidade com ele, Jesus pretendia qualificá-los para voltarem a ser os senhores do universo.
Não obstante, quando os judeus se voltaram contra Jesus, Deus teve que entregar seu corpo para ser pregado na cruz como um resgate para a redenção da humanidade. Considerando que o corpo físico de Jesus foi entregue nas mãos de Satanás, a salvação física foi impossibilitada. Jesus ascendeu deste mundo terreno com a promessa de que retornaria para concluir a salvação que ele havia realizado apenas espiritualmente (Cf. Messias 1.4.). Entretanto, nunca existiu sequer uma pessoa na Terra que tivesse atingido a perfeição espiritual e física, qualificando-se para harmonizar e reger os mundos físico e espiritual. Esta é a razão pela qual Cristo não pode retornar apenas espiritualmente. Como no Primeiro Advento, ele deve vir como um ser humano e atingir a perfeição tanto no espírito quanto na carne. Em seguida, enxertando toda a humanidade em si, espiritual e fisicamente, ele deve guiá-la à perfeição em espírito e corpo, qualificando-os para que se tornem os senhores dos mundos espiritual e físico.
Originalmente, Jesus estava em posição de restaurar o Reino do Céu na Terra. Ele devia se tornar o Verdadeiro Pai da humanidade restaurada e o rei do Reino de Deus na Terra (Is 9: 6; Lc 1: 31-33). Entretanto, devido à descrença das pessoas, ele não pôde cumprir esta Vontade original de Deus, mas foi para a cruz prometendo retornar em um tempo futuro e cumpri-la sem falta. Deste modo, no Segundo Advento, Cristo é novamente o responsável para construir o Reino do Céu na Terra e se tornar o Verdadeiro Pai e Rei de toda humanidade. Esta é outra razão pela qual, como em sua Primeira Vinda, Cristo deve nascer na Terra em sua Segunda Vinda.
A redenção dos pecados só é possível através da vida terrena (Cf. Princípio da Criação 6.3.2.). Para redimir nossos pecados na Terra, Cristo deve vir à Terra como um homem. A salvação que Jesus propiciou através de sua crucificação, contudo, está limitada à dimensão espiritual. Isto não resolve o problema do pecado original, o qual tem sido transmitido através de nossos corpos físicos e permanece ativo dentro de nós. Portanto, Cristo deve vir novamente para trazer salvação completa para a humanidade, incluindo a salvação física. Ele jamais alcançará esta meta se vier apenas em espírito. Portanto, Cristo deve vir em um corpo físico, como em sua Primeira Vinda.
Esclarecemos assim, que a Segunda Vinda de Cristo não será uma vinda espiritual, mas uma vinda física similar à Primeira Vinda. Todavia, supondo que Cristo voltasse em espírito, ficaríamos perplexos com o fato de um espírito, que transcende tempo e espaço e é perceptível somente pelos sentidos espirituais, viesse apoiado sobre nuvens, uma realidade material. Por outro lado, se o Segundo Advento ocorrer pelo aparecimento repentino de Cristo em carne, deslizando sobre as nuvens, como ele poderia permanecer suspenso no espaço? Se Jesus ressuscitou na carne, onde ele residia antes de sua aparição? Algumas pessoas podem contestar estas questões, argumentando que para o Deus Onipotente nada é impossível. Entretanto, Deus não pode ignorar Suas próprias leis e princípios. Deus não precisa e não faz obras em Sua Providência que violem Seu próprio Princípio, tal como fazer o Cristo, que deve retornar com um corpo físico semelhante ao nosso, residir fisicamente no espaço sideral e fazê-lo retornar à Terra pairando sobre as nuvens. Em conclusão, demonstramos, sem dúvidas, que o Segundo Advento de Cristo ocorrerá através de seu nascimento físico na Terra.
2.3 Qual é o Significado do Versículo segundo o Qual Cristo Voltará nas Nuvens?
Uma vez que o retorno de Cristo ocorrerá por meio de seu nascimento na Terra, qual é o significado das profecias bíblicas que sugerem que ele virá sobre as nuvens? Para entender tais profecias, devemos primeiramente investigar o significado bíblico do termo nuvens.
A passagem seguinte é um exemplo: Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até mesmo os que o traspassaram; e todas as tribos da Terra se lamentarão sobre ele. Sim! Amém! (Ap 1: 7) De acordo com este versículo, todos deverão ser capazes de ver o Cristo quando ele retornar. Quando o apóstolo Estevão foi martirizado, somente ele e aqueles cristãos fervorosos cujos sentidos espirituais estavam abertos, foram capazes de ver Jesus sentado à mão direita de Deus (At 7: 55). Da mesma forma, se Cristo deve descer do mundo espiritual como um espírito, somente aqueles crentes cujos sentidos espirituais estiverem abertos serão capazes de vê-lo; assim nem todo olho verá Cristo quando ele vier novamente. A profecia bíblica que sugere que todos verão o Senhor, somente poderá ser cumprida se ele retornar na carne.
Como um corpo físico não pode se apoiar sobre nuvens, no versículo bíblico o termo nuvens deve simbolizar uma outra coisa. Na mesma passagem, está escrito que até mesmo aqueles que o traspassaram o verão em seu retorno. Aqueles que negaram e traspassaram Jesus foram os soldados romanos. Entretanto, aqueles soldados romanos não serão capazes de ver o Senhor em seu retorno. Para vê-lo em seu retorno, aqueles soldados deveriam ser ressuscitados e, de acordo com a Bíblia, os que serão ressuscitados no retorno de Cristo serão apenas os cristãos fiéis, os quais participarão da primeira ressurreição. Os demais espíritos somente ressuscitarão após a passagem do milênio no Reino (Ap 20: 4-5). Assim, a expressão “todos que o traspassaram” deve ser uma metáfora que descreve algum outro grupo de pessoas, não os soldados romanos. Na realidade, a expressão se refere aos cristãos que estarão vivendo no tempo do Segundo Advento agarrados à crença de que Jesus retornará nas nuvens. Quando Cristo retornar à Terra por meio de um nascimento humilde, ao contrário de suas expectativas, aqueles cristãos não o reconhecerão e o perseguirão. Se a expressão “todos que o traspassaram” é uma metáfora, então, o termo nuvens no mesmo versículo também deve ser metafórico.
O que o termo bíblico nuvens significa realmente? As nuvens são formadas a partir da evaporação da água impura da Terra. Na Bíblia, frequentemente, o termo água simboliza pessoas decaídas (Ap 17: 15; Sl 144: 7). Assim, podemos deduzir que o termo nuvens é um símbolo representativo dos cristãos fiéis cujos corações não estão centrados na Terra, mas no Céu, porque foram renascidos e resgatados de seu estado decaído. A Bíblia e outros textos sagrados também utilizam o termo nuvens com o significado de multidões (Hb 12: 1; Ez 38: 9). Muitas vezes esta figura de linguagem é utilizada até mesmo numa conversação casual. No curso de Moisés, a coluna de nuvem que guiava os israelitas de dia representava Jesus, que deveria vir como o líder de Israel; a coluna de fogo que guiava os israelitas à noite representava o Espírito Santo que, como a contraparte feminina de Jesus, guiaria Israel com o fogo da inspiração.
Podemos concluir que a profecia acerca da vinda de Jesus nas nuvens significa que ele emergirá do meio de uma multidão de fiéis renascidos, para se tornar o líder dos cristãos, o Segundo Israel. Recordemos que, quando Jesus foi questionado sobre o lugar de seu retorno, ele respondeu: “Onde, Senhor? E ele lhes disse: Onde estiver o corpo, aí se ajuntarão as águias” (Lc 17: 37). Com isso, Jesus queria dizer que retornará em um lugar onde uma multidão de crentes devotos estarão reunidos. Assim, o termo lugar e o termo multidão têm o mesmo significado do termo bíblico nuvens, contido na profecia segundo a qual Cristo retornará com as nuvens.
Quando decodificamos o significado metafórico do termo bíblico nuvens, fica evidente que, em sua primeira vinda, simbolicamente Cristo também veio do Céu, portanto, das nuvens. Está escrito: “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do Céu” (I Co 15: 47); e ainda “Ora, ninguém subiu ao Céu, senão o que desceu do Céu, o Filho do Homem, que está no Céu” (Jo 3: 13). Embora Jesus tenha nascido na Terra, do ponto de vista da Providência e com relação ao seu verdadeiro valor, ele realmente veio do Céu. Este é também o verdadeiro significado da profecia de Daniel (Dn 7: 13), a qual predisse que Jesus viria sobre as nuvens.
2.4 Por que Jesus disse que o Senhor Virá nas Nuvens?
Foram duas as razões por que Jesus profetizou que o Senhor retornará sobre as nuvens.
Primeiro, para impedir que falsos “cristos” oportunistas criassem confusão entre os cristãos devotos. Se Jesus dissesse claramente que retornaria através de um nascimento físico, teria sido impossível impedir que os falsos messias causassem grande confusão. Uma vez que Jesus, que se declarava o Messias, emergiu como um homem nascido de origem humilde, qualquer indivíduo, de qualquer grupo ou nível social, com algum nível de espiritualidade, poderia declarar-se o Senhor do Segundo Advento e conduzir o mundo para uma grande ilusão e confusão. Felizmente, uma vez que a maioria dos cristãos espera o Cristo retornar das nuvens, e estão olhando para o céu, aquela confusão tem sido evitada. Hoje, entretanto, uma vez que o tempo chegou, a verdade sobre o retorno de Cristo através de seu nascimento físico na Terra deve ser revelada.
Segundo, Jesus disse que Cristo voltaria nas nuvens a fim de encorajar os cristãos, que estavam trilhando o difícil caminho de fé. Há outras ocasiões em que Jesus proferiu palavras paradoxais a fim de encorajar seus seguidores a realizarem a vontade de Deus tão rapidamente quanto possível. Por exemplo, ele disse “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem” (Mt 10: 23). Isto levou seus discípulos a acreditarem que o Segundo Advento ocorreria em um futuro próximo deles. Quando Jesus revelou a Pedro seu martírio, que se aproximava, Pedro perguntou-lhe o que aconteceria com seu amado apóstolo João. E Jesus respondeu-lhe: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (Jo 21: 22). Jesus também disse: “Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu Reino” (Mt 16: 28). Estas declarações levaram os discípulos a pensarem que o retorno de Jesus aconteceria ainda no tempo de suas vidas.
A esperança do retorno iminente de Jesus inflamou o zelo de seus discípulos e deu-lhes força para superarem a perseguição dos judeus e do Império Romano. Encorajados pela ardente esperança iminente do Segundo Advento, eles foram cheios do Espírito Santo (At 2: 1-4) e estabeleceram a igreja cristã primitiva, mesmo em meio a grandes adversidades. Com suas palavras, Jesus buscou inspirar e encorajar seus discípulos, que estavam carregando uma pesada cruz. Por esta razão, ele profetizou que viria nas nuvens no poder e glória de Deus e cumpriria toda a vontade de Deus à velocidade da luz.