Seção 1. Salvação Através da Cruz
1.1 A Finalidade da Vinda de Jesus como o Messias
Jesus veio como o Messias para estabelecer a salvação completa da humanidade. Para tanto, ele deveria cumprir o objetivo da Providência da Restauração, o qual consiste em restaurar o Reino do Céu na Terra. Podemos deduzir isto por meio dos próprios ensinamentos de Jesus aos seus discípulos: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos Céus” (Mt 5: 48).
De acordo com o Princípio da Criação, a pessoa que realiza a finalidade da Criação não comete pecado, pois está em completa harmonia com Deus, possui uma natureza divina e, de acordo com a finalidade da Criação, tal pessoa é perfeita como o Pai celestial é perfeito. Jesus ensinou isto aos seus discípulos na esperança de que eles pudessem ser restaurados como pessoas que tivessem realizado a finalidade da Criação e se tornassem cidadãos do Reino do Céu. Além disso, Jesus ensinou a oração ao povo a fim de restaurar a humanidade decaída como cidadãos do Reino de Deus e construir o Reino dos Céus na Terra. Ele também exortou as pessoas: “Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o Reino do Céu” (Mt 4: 17). Da mesma forma, João Batista, que veio para preparar o caminho do Messias, também anunciou a iminência do Reino do Céu na Terra (Mt 3: 2).
Então, como serão as pessoas depois de restauradas, de terem realizado a finalidade da Criação e de terem se aperfeiçoado assim como é perfeito o Pai celestial? Essas pessoas estarão totalmente em sintonia com Deus e sentirão o Seu íntimo e infinito coração. Elas possuirão uma natureza divina e viverão suas vidas inseparáveis de Deus. Além disso, elas estarão livres do pecado original e, por isso, não precisarão de redenção e nem de um salvador. Elas não precisarão viver uma intensa vida de oração ou de intensa prática de fé, requisitos estes necessários para as pessoas decaídas que buscam a Deus. Além disso, como elas não possuem o pecado original, seus filhos nascerão naturalmente bons e sem pecado, e não precisarão de um salvador para redimi-los de seus pecados.
1.2 A Salvação se Completou Através da Cruz?
Será que, com a crucificação de Jesus, fomos redimidos de nossos pecados e a finalidade da Providência da Salvação foi cumprida? Se assim fosse, os crentes fiéis em Jesus teriam restaurado sua natureza original e já teriam construído o Reino do Céu na Terra. No entanto, diante de toda a história do Cristianismo não houve ninguém, por mais devoto que fosse, que tivesse vivido em unidade inseparável com Deus. Porém, ninguém nunca sentiu um coração de tamanha intensidade e nem conquistou uma natureza divina. Jamais houve um crente que não tivesse a necessidade de se redimir e nem de levar uma vida de intensa devoção. Nem mesmo o apóstolo Paulo, um grande homem de Deus, pôde escapar de levar uma vida de fé, oração e lágrimas (Rm 7: 18-25). Além do mais, nenhum pai cristão, por mais devoto que fosse, deu à luz um filho sem pecado original e que pudesse entrar no Reino de Deus sem a necessidade da redenção pela graça do Salvador. Até hoje, os pais cristãos continuam transmitindo o pecado original aos seus filhos.
Qual a lição que podemos aprender desse exame crítico e profundo da realidade de fé e de vida cristã? Ela ensina-nos que a graça da redenção pela cruz não erradicou por completo nem restaurou perfeitamente a nossa natureza original. Jesus, sabendo que a redenção pela cruz não cumpriria totalmente a finalidade de sua vinda, prometeu que voltaria novamente. Prometeu, também, realizar a vontade de Deus na Terra, a qual é imutável e absoluta. Por este motivo, Jesus pretendia voltar para realizar a vontade de Deus por completo.
Será que o sacrifício de Jesus na cruz foi em vão? Claro que não (Jo 3: 16). Se assim fosse, o Cristianismo não teria tido uma história tão notável como teve. Além do mais, nossa própria experiência de fé deixa claro quanto à amplitude da graça da redenção pela cruz, a qual não nos libertou completamente do pecado original, não nos restaurou ao estado de perfeita natureza original livre da Queda, não nos livrou de cometer pecado e nem nos permitiu estabelecer o Reino do Céu na Terra.
Então, qual a avaliação mais precisa quanto ao prolongamento da salvação por meio da cruz? A menos que esta questão seja respondida, ficará difícil para as pessoas do mundo moderno conduzirem corretamente a sua fé. Porém, antes de qualquer coisa, é necessário voltarmos e analisar a morte de Jesus na cruz.
1.3 A Morte de Jesus na Cruz
Será que a morte de Jesus na cruz foi a predestinação original de Deus? Vamos primeiro examinar as palavras e os atos dos discípulos como registrado na Bíblia.
Havia um sentimento unânime e evidente entre os discípulos em relação à morte de Jesus, na qual, diante de muita dor, estavam pasmos e indignados. Estevão, por exemplo, perplexo de indignação pela ignorância e descrença dos líderes judeus, chamou-os de assassinos e rebeldes e condenou-os por suas ações (At 7: 51-53). Os cristãos têm partilhado dos mesmos sentimentos dos discípulos do tempo de Jesus. Portanto, se a morte de Jesus tivesse sido o resultado da predestinação do cumprimento da vontade de Deus, então teria sido natural que os discípulos ficassem tristes com sua morte e não tivessem, de maneira alguma, ficado tão ressentidos e pesarosos com os líderes judeus que causaram sua crucificação; podemos, então, deduzir por meio de suas amargas reações, que a morte de Jesus na cruz fora tremendamente injusta e indevida.
Vejamos agora, do ponto de vista da Providência de Deus, se a crucificação de Jesus era inevitável como predestinação de Sua vontade.
Deus escolheu o povo de Israel entre os descendentes de Abraão. Ele protegeu-os, alimentou-os e, contudo, disciplinou-os diante de muitas tribulações e provações. Para confortar seu povo, Deus estabeleceu uma promessa inabalável de que um dia lhes enviaria um Messias. Ele, então, preparou-os para receber o Messias, fazendo-os construir o Tabernáculo e o Templo. Contudo, quando Jesus nasceu, Deus proclamou o seu Advento, enviando os três reis magos do Oriente, Simeão, Ana, João Batista e outros, para testemunharem a chegada do Messias.
Relativamente a João Batista, muitas pessoas sabiam que um anjo tinha aparecido e falado de sua concepção (Lc 1: 13). Os milagres que rodearam seu nascimento agitaram a Judeia, criando uma grande expectativa (Lc 1: 63-66). Além disso, a vida ascética de João no deserto era tão impressionante, que muitas pessoas se interrogavam se ele não seria o Cristo (Lc 3: 15). O propósito de Deus ao enviar uma personalidade do nível de João Batista para testemunhar a vinda de Jesus foi para encorajar o povo judeu a acreditar e a seguir Jesus como o Messias.
Como a vontade de Deus era que o povo judeu da época acreditasse e seguisse Jesus como o Messias, o povo que tinha sido preparado para viver de acordo com a vontade de Deus, deveria ter acreditado nele. Se o povo tivesse acreditado em Jesus, como Deus o desejava, será que teria acatado o pensamento de pregar Jesus numa cruz? Teriam os judeus desejado algum mal ao Messias, por quem haviam esperado tão ansiosamente? Contudo, por terem se rebelado contra a vontade de Deus e não terem acreditado que Jesus era o Messias, este foi entregue à crucificação. Desta forma, podemos compreender que Jesus não veio para morrer na cruz.
A seguir, analisemos as palavras e os procedimentos do próprio Jesus para averiguarmos se a sua crucificação seria, de fato, a forma de completar sua missão como Messias.
As palavras e os procedimentos de Jesus tinham como objetivo levar o povo a acreditar que ele era o Messias. Por exemplo, quando as pessoas lhe perguntaram sobre o que deveriam fazer para realizar a obra de Deus, Jesus respondeu-lhes: A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que Ele enviou. (Jo 6:29) Um dia, Jesus estava angustiado devido à descrença dos fariseus, e não tendo ninguém com quem partilhar o seu coração, olhou com tristeza para a cidade de Jerusalém, chorou e lamentou sobre o destino do povo judeu, que Deus havia guiado com tanto amor e empenho durante dois mil anos. Jesus profetizou que a cidade seria destruída e que não ficaria pedra sobre pedra. Ele claramente apontou a ignorância do povo, dizendo: “não conheceste o tempo da tua visitação” (Lc 19: 44).
Em outra ocasião, Jesus lamentou a teimosia e a descrença do povo de Jerusalém, dizendo: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quisestes! (Mt 23:37) Jesus censurou o povo que se recusava a acreditar nele, apesar de conhecer as Escrituras que davam testemunho de sua vinda: Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam. E não quereis vir a mim para terdes vida. — Jo 5:39-40 Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis. Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim, porque de mim escreveu ele. (Jo 5:43-46)
Quantos milagres e sinais Jesus realizou na tentativa desesperada a fim de despertar o povo de sua descrença! Todavia, mesmo testemunhando as obras maravilhosas de Jesus, os líderes religiosos zombavam dele como se ele fosse possuído por Belzebu (Mt 12: 24). Diante de uma situação tão miserável, Jesus disse: Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras, para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele. (Jo 10:38) Mais adiante, confrontando seus opositores, Jesus denunciou de modo contundente a sua hipocrisia (Mt 23: 13-36). Por meio de suas palavras e procedimentos, Jesus tentou levar seu povo a acreditar nele porque essa era a vontade de Deus. Todavia, se eles tivessem seguido a vontade de Deus e acreditado em Jesus como o Messias, quem, dentre eles, teria ousado enviá-lo à cruz?
Diante de todas as evidências citadas, podemos deduzir que a morte de Jesus na cruz foi um triste resultado da ignorância e da descrença do povo de sua época. A cruz não era necessária para realizar sua missão de Messias. Esta ideia está bem ilustrada nas últimas palavras de Jesus quando estava pregado na cruz: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. (Lc 23:34)
Se Deus tivesse predestinado, originalmente, a morte de Jesus na cruz, este teria seguido o caminho da cruz sabendo que era esse seu destino. Então, por que razão Jesus orou por três vezes: “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”? (Mt 26: 39). Na verdade, Jesus fez essas orações desesperadas porque sabia bem que sua morte arruinaria a esperança de alcançar o Reino do Céu na Terra. E isto seria uma enorme desilusão para Deus que, desde a Queda, vinha lutando tanto para realizar esta esperança. Além disso, Jesus sabia que as aflições da humanidade continuariam sem consolo até o momento de sua segunda vinda.
Jesus disse: “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado” (Jo 3: 14). Quando os israelitas perderam a fé em Moisés no caminho para Canaã, apareceram serpentes de fogo que começaram a matá-los. Deus ordenou a Moisés que construísse uma serpente de bronze e a colocasse numa haste, de modo que todos os que olhassem para ela pudessem sobreviver (Nm 21: 4-9). Similarmente, Jesus previu que, devido ao fato de o povo escolhido não acreditar nele, a humanidade seria entregue ao inferno. Ele, então, previu que seria pregado na cruz, como a serpente de bronze, a fim de salvar toda a humanidade, garantindo a salvação para todos os que acreditassem nele. Prevendo isto, com o coração partido, Jesus fez esta profecia de mau presságio.
Um outro indício de que a morte de Jesus na cruz não era a vontade de Deus é que o Estado de Israel entrou em declínio depois de sua crucificação. (Lc 19: 44). Isto foi consequência da descrença do povo, que conhecia a profecia de que Jesus viria, se sentaria no trono de Davi e estabeleceria um reino eterno: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Do incremento deste principado e da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar em juízo e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto. (Is 9:6-7) Um anjo apareceu a Maria antes da concepção de Jesus e fez uma predição semelhante: E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu Reino não terá fim. (Lc 1:31-33)
A intenção óbvia de Deus para o Seu povo escolhido de Israel, que tinha sido guiado através de tantas tribulações desde o tempo de Abraão, era enviar-lhes o Messias e construir um Reino eterno na Terra. No entanto, quando os líderes judeus perseguiram Jesus levando-o à cruz, Israel perdeu sua qualificação e seu prestígio como nação escolhida para o estabelecimento do Reino de Deus. Em poucas gerações, o povo de Israel espalhou-se por toda a Terra e, desde então, tem sofrido opressões e perseguições. Diante desse fato histórico, podemos entender claramente o porquê desta trágica consequência devido ao erro que seus antepassados cometeram ao condenar o Messias à morte, a quem deviam ter honrado e protegido, mas, ao contrário, impediram-no de realizar a Providência da Restauração. Por conseguinte, não só os judeus, mas também muitos cristãos fiéis tiveram que suportar o caminho da cruz pela qual, através do pecado coletivo, mataram Jesus.
1.4 Os Limites da Salvação por Meio da Redenção pela Cruz e a Finalidade da Segunda Vinda do Messias
O que teria acontecido se Jesus não tivesse sido crucificado? Jesus teria realizado ambos os aspectos da salvação — espiritual e física. Ele, certamente, teria estabelecido o eterno e indestrutível Reino do Céu na Terra. Afinal, era isto que tinha sido predito pelo profeta Isaías, anunciado pelo anjo a Maria e manifestado pelo próprio Jesus ao anunciar que o Reino do Céu estava próximo (Is 9: 6-7; Lc 1: 31; Mt 4: 17).
Quando Deus criou o homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2: 7), assim foram criados os seres humanos, em espírito e carne.
Como a Queda do homem ocorreu em nível espiritual e físico, Jesus veio para realizar a salvação completa, portanto, era de sua responsabilidade realizar a Providência da salvação em nível espiritual e físico. Contudo, acreditar em Jesus significa tornar-se um com ele. Neste contexto, Jesus comparou-se a uma videira e os seus discípulos aos seus ramos (Jo 15: 5). Ele também disse: “Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós” (Jo 14: 20). Para salvar as pessoas decaídas física e espiritualmente, era necessário que Jesus viesse na forma de um homem físico. Se o povo tivesse acreditado em Jesus e se unido a ele em carne e espírito, teriam recebido ambas as salvações, espiritual e física. Contudo, o povo não acreditou em Jesus; em vez disso, condenou-o à cruz. E o corpo de Jesus foi atacado por Satanás. Portanto, mesmo que os cristãos fiéis sejam um com ele, os seus corpos físicos continuam sob o domínio de Satanás, porque o corpo de Jesus foi destruído por ele.
Consequentemente, compreendemos que por mais devoto que venha a ser um crente, ele não pode alcançar a salvação física através da redenção pela cruz de Jesus. O seu pecado original, transmitido pela linhagem de Adão, não é eliminado pela sua raiz. Até mesmo, um cristão, por mais devoto que seja, permanece com o pecado original e dá à luz filhos que também possuem o pecado original. Por meio de nossa fé pessoal, podemos sentir a necessidade de mortificar e negar a nossa carne no sentido de impedir a invasão de Satanás, que tenta escravizar-nos continuamente, através dos nossos corpos. Fomos orientados a “orar constantemente” (I Ts 5: 17), a fim de remover as condições através das quais Satanás nos ataca. Estas condições são originadas do pecado original que, apesar da salvação através da redenção pela cruz, ainda não foi erradicado.
Jesus não pôde cumprir o objetivo da salvação completa — espiritual e física —, pois o seu corpo foi tomado por Satanás. Todavia, Jesus lançou o fundamento para a salvação espiritual ao assegurar o fundamento vitorioso para a sua ressurreição através da redenção por meio de seu sangue derramado na cruz. Consequentemente, todos os crentes, desde a sua ressurreição, têm recebido a graça da salvação espiritual, porém, não a salvação física.
A salvação através da redenção pela cruz foi apenas espiritual. O pecado original permanece ativo na carne, até mesmo nos cristãos mais devotos, que o transmitem por meio da linhagem aos seus descendentes. Quanto mais fervorosa for a fé de um crente, mais intensa será a sua luta contra o pecado que permanece dentro de si.
Até o apóstolo Paulo, o mais devoto de todos os apóstolos, lamentou sua incapacidade de impedir a invasão de sua carne pelo pecado: Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim, que eu mesmo com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, sirvo à lei do pecado. (Rm 7: 22-25) Estas palavras contrastam bem a felicidade que Paulo sentiu após ter recebido a salvação espiritual com a sua angústia por não ter alcançado a salvação física. João também confessou: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós... Se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso, e a Sua palavra não está em nós. (I Jo 1: 8 e 10) Nós, que recebemos a salvação com base na crucificação de Jesus, não podemos libertar-nos das cadeias do pecado por causa do pecado original que ainda está bem vivo no íntimo de nosso ser. Contudo, para erradicar o pecado original que não foi eliminado por Jesus, deixando a Providência da salvação física incompleta, Ele tem que voltar à Terra e só então será cumprido o propósito da obra da salvação de Deus, tanto a nível espiritual quanto a nível físico.
1.5 Os Dois Tipos de Profecias Referentes à Cruz
Se a morte de Jesus na cruz não foi a predestinação como sendo necessária para o cumprimento de seu propósito como Messias, por que, então, foi profetizado em Isaías que Ele sofreria a provação da cruz? (Is 53). À primeira vista, pode-se pensar que a Bíblia contém apenas profecias sobre o sofrimento de Jesus.
No entanto, quando lemos a Bíblia mais atentamente, centralizando-nos no Princípio, percebemos que existem outras profecias contrárias. Como a profecia de Isaías (Is 9:11, 60) e o anúncio do anjo à Maria (Lc 1: 31-33), foi predito que Jesus se tornaria o rei dos judeus ainda durante a sua vida e que ele estabeleceria um reino eterno na Terra. Vejamos por que motivo, então, Deus concedeu estes dois tipos de profecias opostas em relação a Jesus.
Deus criou os seres humanos para que atingissem a perfeição apenas pelo cumprimento de sua própria porção de responsabilidade (Cf. Princípio da Criação 5.2.2.). Na realidade, os primeiros antepassados humanos não cumpriram suas devidas responsabilidades e caíram. Por isso, os seres humanos têm um potencial para cumprir suas responsabilidades de acordo com a vontade de Deus ou falhar contrariando a vontade Dele.
Vejamos alguns exemplos da Bíblia. A porção de responsabilidade de Adão era não comer do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Ele podia obedecer ao mandamento de Deus e alcançar a perfeição ou comer do fruto e morrer. Das duas opções, ele escolheu a última.
Na Era do Antigo Testamento, Deus deu os Dez Mandamentos e a Lei de Moisés para que o povo obedecesse como condição para sua salvação. A responsabilidade do povo era obedecer à Lei e receber a salvação, ou desobedecer e cair na ruína (Dt 30: 15-20).
Para os israelitas que deixaram o Egito e partiram em direção a Canaã, sua responsabilidade era a de obedecer às instruções de Moisés. Eles podiam agir de acordo com a direção de Moisés e entrar na Terra prometida de Canaã, ou ficarem contra ele e não entrar na Terra prometida. Contudo, Deus havia predito que conduziria os israelitas até a Terra de Canaã (Êx 3: 8) e ordenou a Moisés levá-los até lá. Contudo, devido à sua falta de fé, o povo pereceu no deserto e apenas os seus descendentes puderam chegar até o destino final.
Os seres humanos, assim, possuem a sua própria porção de responsabilidade e podem cumpri-la, de acordo com a vontade de Deus, ou não. A natureza dos frutos que eles produzem depende do cumprimento ou não de sua própria porção de responsabilidade. Foi por esse motivo que Deus concedeu dois tipos de profecias relativamente ao cumprimento da Sua vontade.
Enviar o Messias era a porção de responsabilidade de Deus. No entanto, acreditar ou não no Messias era a porção de responsabilidade do homem. O povo judeu tanto poderia acreditar no Messias, como Deus desejava ou não acreditar nele, contrariando Seu desejo. Para fazer frente à contingência da responsabilidade humana, Deus concedeu dois tipos de profecias relativamente ao cumprimento de Sua vontade através de Jesus. Um tipo previa a morte de Jesus devido à descrença do povo (Is 53). O outro previa que o povo acreditaria e honraria a ele como sendo Messias e o ajudaria na realização da vontade de Deus e em sua glória (Is 9:11-60; Lc 1:31). Quando Jesus morreu na cruz devido à descrença de seu povo, cumpriu-se apenas a primeira profecia. As demais serão cumpridas na época da Segunda Vinda de Cristo.
1.6 As Passagens dos Evangelhos nas Quais Jesus Fala de Sua Morte como se Ela Fosse Necessária
Existem várias passagens na Bíblia, nas quais Jesus fala de seu sofrimento na cruz como se este fosse necessário para a salvação. Por exemplo, quando Pedro ouviu a predição de Jesus com relação à sua crucificação iminente e tentou dissuadi-lo, Jesus repreendeu-o, dizendo: “Para atrás de mim, Satanás, que me serves de escândalo” (Mt 16: 23). Então, por que motivo Jesus censurou Pedro de forma tão rude? Na verdade, quando Jesus proferiu essas palavras, a descrença do povo escolhido já tinha frustrado seus esforços para completar a Providência da salvação física e espiritual. Nessa altura, Jesus já tinha aceitado o caminho da cruz (Lc 9: 31) como uma condição de indenização para abrir, pelo menos, o caminho para a salvação espiritual da humanidade. A dissuasão de Pedro poderia ter impedido Jesus de preparar o caminho para a salvação espiritual através da cruz. Por isso Jesus o repreendeu.
Um segundo exemplo são as últimas palavras de Jesus na cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19: 30). Jesus não disse essas palavras com o intuito de dizer que a Providência da Salvação tinha sido consumada por completo através da crucificação. Depois de perceber que a descrença do povo era inalterável, Ele escolheu o caminho da cruz para estabelecer o fundamento para a salvação espiritual, deixando a obra da salvação física para ser cumprida no tempo do Segundo Advento. Por isso, com a expressão “Tudo está consumado”, Jesus quis dizer que tinha terminado de estabelecer o fundamento para a salvação espiritual. A essa altura, Ele tinha se colocado na posição alternativa de objeto condicional para a Providência da Salvação.
Para que possamos usufruir de uma verdadeira fé, é necessário criar antes uma comunhão direta com Deus através das experiências espirituais de oração e, em seguida, compreender a verdade através de uma leitura correta das Escrituras. Também, foi por esta razão que Jesus disse para adorarmos a Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4: 24).
Desde o tempo de Jesus os cristãos têm acreditado que ele veio a este mundo para morrer na cruz. Eles desconhecem o propósito fundamental pelo qual Jesus veio como o Messias, e não têm compreendido a salvação espiritual que ele nos trouxe, julgando ser esta tudo o que a sua missão implicava. Jesus queria ter vivido e realizado o seu destino; no entanto, devido à descrença do povo, morrera com um coração repleto de desilusão. Por isso, é necessário que surjam na Terra noivas fiéis, crentes de profundo coração, que possam aliviar o amargo e doloroso coração de Jesus e exaltar seus desejos antes de sua volta como o noivo. Ainda assim, Jesus lamentou: “Quando, porém, vier o Filho do homem, porventura achará fé na Terra?” (Lc 18: 8), prevendo que, quando voltar, o povo estará provavelmente mergulhado nas trevas.
A partir desse nosso estudo bíblico, podemos perceber com clareza que Jesus não veio para morrer na cruz. Poderemos ter certeza disso se conseguirmos nos comunicar e perguntar diretamente a Jesus, em espírito. Se a percepção espiritual não estiver ao nosso alcance, então, devemos procurar os testemunhos daqueles que possuem esse dom a fim de compreendermos corretamente o seu coração e aprofundarmos mais a nossa fé; só então, seremos dignos de nos tornarmos as noivas de Jesus capazes de recebê-lo nos Últimos Dias.